Nobreza e arete

fevereiro 9, 2012

Muito que bem, chegamos ao segundo capítulo: Nobreza e arete. Exciting! É fundamental entender essa relação, já que arete é um tema central do pensamento grego e se concebeu no meio dessa sociedade absolutamente aristocrática. Vamos falar também de honra. Esse capítulo é show de bola!

Vimos que a formação do homem grego envolve aquela ideia do Homem ideal, a obsessão pela excelência em todos os campos. O que é fundamental é a beleza, sendo mais belo aquilo que corresponde com maior proximidade aos ideais, sendo algo superior ou inferior na medida em que se aproxima ou que se afasta deles.

Os Gregos não conheciam a ideia de igualdade entre os homens. Isso soaria até mesmo ridículo. As coisas e as pessoas não são iguais. Uns são mais fortes, outros mais inteligentes, etc e isso é facilmente observado, basta olhar para os lados. Parece então natural que esse pensamento tenha nascido no seio de uma sociedade aristocrática, hierarquizada.

Aristocracia. Hierarquia. Superioridade e inferioridade medida pela arete de um indivíduo. Arete foi um conceito que sofreu mudanças ao longo do tempo. Nos tempos de Homero, significava sobretudo uma força, uma capacidade. Vigor e saúde são a arete do corpo; sagacidade e penetração, a arete do espírito. Mais tarde, o conceito foi ampliado para incluir atributos morais ou outras excelências que não a força intrépida.

“(…) o homem comum não tem arete e, se o escravo descende por acaso de uma família de alta estirpe, Zeus tira-lhe metade da arete e ele deixa de ser quem era antes. (…) Arete é um atributo próprio da nobreza. Os Gregos sempre consideraram a destreza e a força incomuns como base indiscutível de qualquer posição dominante. Senhorio e arete estavam inseparavelmente unidos. (…) Para a mentalidade grega, que avaliava o Homem pelas suas aptidões, era natural encarar o mundo em geral sob o mesmo ponto de vista.”

A nobreza helênica possuía aquele traço comum de se portar de maneira distinta dos homens comuns, com hábitos, gestos e etc. Isso fazia parte da formação dos nobres. Mas um traço peculiar dessa cultura era o de se orgulhar de ser cobrada em padrões de excelência, de ter um dever em face do ideal.

 “A luta e a vitória são no conceito cavaleiresco, a autêntica prova de fogo da virtude humana. Elas não significam simplesmente a superação física do adversário, mas a comprovação da arete conquistada na rigorosa exercitação das qualidades naturais”. (…) “O esforço e a vida inteira desses heróis são uma luta incessante pela supremacia entre seus pares, uma corrida para alcançar o primeiro prêmio.

O treinamento dos atletas olímpicos bem demonstra essa obsessão pelos louros da vitória. Não apenas como superação dos adversários, mas pela demonstração das capacidades conquistadas mediante treinamentos que os distanciam do homem comum e até do atleta comum. São atletas olímpicos. Os jogos olímpicos não tem a menor intenção de demonstrar igualdade entre os homens, senão e justamente o contrário!

E a honra? Bem, a honra pode ser resumida como o prêmio da arete. O homem “virtuoso”, através de seus feitos buscava esse bem maior que era a honra, muito antes de buscar enriquecer com o acúmulo de moedas.

 “O homem homérico só adquire consciência do seu valor pelo reconhecimento da sociedade a que pertence. Ele é um produto da sua classe e mede a arete própria pelo prestígio que disputa entre os seus semelhantes. Tal entendimento difere do pensamento filosófico posterior que situa a medida na intimidade de cada um e ensina a encarar a honra como reflexo do valor interno no espelho da estima social”.

Ainda bem que a filosofia conseguiu destacar a auto-estima do prestígio social. Hoje, é senso comum que as pessoas que não o conseguem o fazem por falta de alguma coisa. São os carentes de atenção, amor, ou qualquer coisa gênero. Mas esse era o pensamento vigente num primeiro momento. Pode-se ver que ofender a honra de alguém era uma das maiores ofensas imagináveis.

Hoje nós temos uma tipificação penal um tanto acanhada acerca dos crimes contra a honra e são poucas as pessoas que recorrem a um advogado para imputar a alguem os crimes de calúnia, injúria e difamação, a não ser os políticos, que volta e meia fazem uso dessa tutela jurídica. Países como os EUA sequer preveem esse tipo de crime, dando muito maior ênfase à liberdade de expressão. A honra é demodé no mundo contemporâneo…

 “A ânsia de se distinguir e a aspiração à honra e à aprovação aparecem ao sentimento cristão como vaidade pessoal pecaminosa; os Gregos, porém viram nisso a aspiração da pessoa ao ideal e suprapessoal onde começa o valor. (…) Até os deuses reclamam a sua honra e se comprazem no culto que lhes glorifica os feitos, castigando ciosamente qualquer violação dessa honra. Os deuses de Homero são, por assim dizer, uma sociedade imortal de nobres; e a essência da piedade e o culto grego exprimem-se no fato de honrar a divindade.”

Pois bem, o velho conceito guerreiro de arete teve de ser ampliado ante a nova imagem do Homem perfeito “para o qual ao lado da ação estava a nobreza do espírito, e só na união de ambas se encontrava o verdadeiro objetivo”.

 “O desejo da honra já não é tido como conceito meritório pelos Gregos dos tempos que se seguiram. Corresponde mais à ambição, tal como a entendemos hoje. “

Nesse segundo período, temos a altivez (orgulho nobre; arrogância) e a magnanimidade (generosidade) como os atributos supremos de um homem superior. Não seriam virtudes em si, pois só tem significado se a enquadrarmos na plenitude da arete.

 “O pensamento ético dos grandes filósofos atenienses permanece fiel à sua origem aristocrática, ao reconhecer que a arete só pode atingir a perfeição em almas de escol. O reconhecimento da grandeza de alma como a mais elevada expressão da personalidade espiritual e ética fundamenta-se, tanto para Aristóteles como para Homero, na dignidade da arete. A honra é o troféu da arete; é o tributo pago à destreza. A altivez provém, assim, da arete, mas daí resulta igualmente que a altivez e a magnanimidade são o que já de mais difícil para o Homem” – são as jujubas do bolo.

Para finalizar com chave de ouro vou fazer uma longa transcrição a respeito da noção de auto-estima de Aristóteles.

 “Entenda-se bem que o eu não é o sujeito físico, mas o mais alto ideal de Homem que o nosso espírito consegue forjar e que todo nobre aspira a realizar em si próprio. Só mais alto amor deste eu, em que está implícita a mais elevada arete, é capaz de ‘fazer sua a beleza’. Esta frase é tão genuinamente grega, que é difícil vertê-la para um idioma moderno. As pirar à ‘beleza’ (que para os Gregos significa ao mesmo tempo nobreza e eleição) e fazê-la sua é não perder nenhuma ocasião de conquistar o prêmio da mais alta arete.

Que significado tem para Aristóteles esta ‘beleza’? Nosso pensamento volta-se logo para o refinado culto da personalidade de tempos posteriores, para a aspiração, caracterísitca do humanismo do séc. XVIII, à livre formação moral e ao enriquecimento espiritual da própria personalidade. Mas as próprias palavras de Aristóteles mostram, ao contrário, sem sombra de dúvida, que aquilo que ele tem diante dos olhos são, acima de tudo, as ações do mais alto heroísmo moral. Quem estima a si próprio deve ser infatigável na defesa dos amigos, sacrificar-se pela pátria, abandonar prontamente dinheiro, bens e honrarias para ‘fazer sua a beleza’. Esta frase curiosa repete-se com insistência, o que mostra até que ponto a mais sublime entrega a um ideal é para Aristóteles prova de um elevado amor-próprio.

O autor cita o próprio Aristóteles: “Quem está impregnado de auto-estima deseja antes viver um breve período no mais alto gozo a passar uma longa existência em indolente repouso; prefere viver só um ano por um fim nobre, a uma vasta vida por nada; escolhe antes executar uma única ação grande e magnífica, a fazer uma série de pequenas insignificâncias”

E comenta:

“Nestas palavras revela-se o que há de mais peculiar e original no sentimento de vida dos Gregos, aquilo por que nos sentimos essencialmente unidos a eles: o heroísmo. Elas são a chave que nos faculta a inteligência da história grega (…). Na fórmula ‘fazer sua a beleza’ está expresso com claridade ímpar o motivo íntimo da arete helênica. É isto que, já no tempo da nobreza homérica, distingue o heroísmo grego do simples desprezo selvagem pela morte. É a subordinação do físico a uma ‘beleza’ mais elevada. Ao trocar esta beleza pela vida, o impulso natural do homem à auto-afirmação encontra no dom de si a mais alta realização. No discurso de Diótima, no Banquete de Platãp, situam-se no mesmo plano o sacrifício de dinheiro e de bens, a resolução dos grandes heróis da antiguidade no esforço, no combate e na morte, para alcançarem o prêmio de uma glória duradoura, e a luta dos poetas e legisladores para deixarem à posteridade criações imortais do seu espírito. E ambas as coisas se explicam pelo poderoso impulso do homem mortal em busca da própria imortalidade. Constituem o fundamento metafísico dos paradoxos da ambição humana e da ânsia de honra.”

 

 

Bem, se um grego se alimentava de honra, um “blogueiro” se alimenta de comentários! Vocês já sabem o que fazer! 

 

Na próxima publicação: Cultura e educação da nobreza homérica

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